menina dos olhos

“Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados.” Osman Lins: Guerra sem testemunhas

Menina dos Olhos

terça-feira, 23 de março de 2010


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Espero todos lá!

Fernanda Tavares

Vôo silencioso

quinta-feira, 18 de março de 2010

Como os pássaros livres de si

que caminham em direção ao vento

de encontro ao horizonte

calmo

manso

desconhecido

¨

como o vôo emocionante

que nos leva até nós

e de repente nos atira

sozinhos dentro de nós mesmos

desesperados

perdidos

solitários

¨

como as paredes naturais

que separam espaços

e delimitam lugares

estamos aqui

aprisionados

separados

delimitados

por nosso próprio ser-não-ser

¨

como nós

às vezes pássaros

às vezes gaiola

sentados nas paredes que construímos com nossas próprias mãos.

¨

¨

¨

Fernanda Tavares

Encantamento poético

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

É com dificuldade que as palavras começam a sair

e deixam-se revelar a face escondida de algum estranho sem rosto

mesclam-se entre o dito e o não dito

dividem-se entre a confusão e a emoção

e fazem por si só

uma rima de saudadencantamento

que por aí revela segredos gravados em silêncio

estremecem minhas pernas e mãos

cravadas de admiração, desejo e paixão

junto ao som dos tambores ao alto

meu coração acelera a sua pulsação

e meu sangue ferve até aquecer-te inteiro

parte por parte

palavra por palavra

¨

brindamos a libertação

como quem brinda a si próprio

foi te soltando de si que eu me soltei de mim

e nos amarramos num enlace de corpos e músculos cardíacos

que só o cheiro sabor dos extremos pode revelar

¨

quanto as palavras?!

algumas não cabem em canto nenhum de nós

não foram feitas para serem ditas

e sim para serem sentidas

¨

sentimos!

tanto que não podemos esmagar qualquer pálpebra molhada

para extrair sentimentos que se encaixem em definições exatas

erradas

subvertidas e entrepostas pelo mesmo abismo

¨

fiz de mim um pouco do que pude

de você fiz um pouco de mim

e de nós nos fazemos entre rabiscos-riscos

palavras-papéis

beijos-sorrisos

olhares-gestos

e todo o resto

que me completa os espaços mais íntimos e ínfimos

¨

você quando abre os olhos e sorri

brinca com o carinho

como uma criança brincando sozinha

e se revela a mistura perfeita

da pureza dos pequenos

com a grandeza das geleiras derretidas

da revelação e do esconderijo

da revolução e da convicção

do orgulho e do carisma

de um pouco de mim em um pouco de você

¨

sua pele sobre a minha pele acalma meu sono

e seu olhar dentro do meu olhar reflete a arte de extasiar-se pelas coisas pequenas

sem voz sem cheiro

nem cor nem textura

pelas coisas que só importam às artérias de grande calibre

e aos lábios trincados de afeto

pintando encanto aos cantos e becos

que eu desenhei pra te encontrar

onde as pernas entrelaçadas estão agora já mais firmes

à espera de algum outro pôr do sol

que venha dar sentido ao samba doce que escrevemos sem rascunho

e completar a poesia pondo um pouco de amor numa cadência

no aperto de um abraço terno e manso e secreto.

¨

Quero seu cheiro, gosto, toque

sua pele, seu laço, carinho

escritos nessa tentativa de te escrever

com minhas próprias mãos, calor, suor

corpo, mente, pulso

e qualquer coisa que não complete a eterna caça a palavras

que só existem no silêncio indizível das formas e cores

¨

inebriantes

encantadas

inefáveis.

¨

¨

¨

Fernanda Tavares

As coisas mais simples

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Tem o peso de uma folha leve

o tamanho de um pedaço inteiro

o cheiro de uma flor suave

a beleza de uma paisagem distante.

¨

Vem com o sopro

se amplifica por grandezas desconhecidas

se desfaz em milímetros

grava na eternidade seu rosto escondido.

¨

Dia a dia

a gente inventa alguma razão

pra esse nosso hoje em dia.

¨

¨

¨

Fernanda Tavares

Pássaros-passos

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Era como descer um degrau

um à um

e observar aos poucos

quase mudo

a diferença entre cada um deles

como se isso fosse mesmo

de alguma forma importante

mas não era

nem antes

nem agora,

nada importa.

Nem tanto.

¨

Era como se o tempo mentisse

nos enganasse

como goles eternos

em madrugadas vazias.

Como se o vento remetesse a tudo aquilo

que não remete

nem remetera

jamais.

¨

Era como não é

como ainda não foi

nem mesmo será.

¨

Os degraus

passam por nós

e nos deixam aqui

assim

aos poucos

e vagarosamente

nós passamos eles

aos pássaros

e passos

¨

¨

¨

¨

¨

espaços.

¨

¬

Fernanda Tavares

Passageiro sangrento

domingo, 20 de dezembro de 2009

 

Sobre o tempo

aquele suspiro quase frio

que quando passa

leva no vento

sombra breve

mansidões e tempestades

feitios de passagem.

¨

Sobre aquela coisa

que não é

nem não foi

outra ainda

alguma qualquer.

¨

Não foi sendo por amor

nem por não-amor

foi sendo por mim

por algo que por ora

guardou-se aqui.

¨

O conflito era meu

tomei-o todo com minhas próprias mãos

ainda sujas

cheirando a sangue.

¨

Aquilo não era por mal

era por algo dentro do eu

que me fazia ser assim

nem mesmo era por ele

jamais o foi

ali, só existia aquela outra coisa

que não era nem ele

nem nada

um pouco de eu

calado apenas

vazando por entre gotas

repletas de sentimentos

vazias de significados.

¨

Era como se eu estivesse

ao mesmo tempo

acima e abaixo de todos

escorrendo de mim

meu ser já derramado de si.

¨

Estava além

de explicações

além de palavras

além de regras

além de medos

além de mim,

muito além.

¨

Estava aqui.

Fernanda Tavares

Rodopio as avessas

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

 

Aquele cheiro do mundo

ainda tinha o mesmo cheiro.

¨

E nas rodas

cada vez mais velozes

eu procurava algum sentido

pra permanecer ali.

¨

Não encontrei.

¨

Mesmo assim continuei

aqui estou.

¨

Era como se as coisas passassem…

passassem por mim

era como se eu passasse.

¨

De repente, passei.

¨

Aquilo que sempre nos fazia

e fazia de nós o que éramos

de repente

não mais nos fazia,

não mais nem éramos.

¨

Não somos ainda.

¨

A roda

aquela que nunca parou de rodar

ainda roda

e eu

rodo com ela.

¨

Sempre rodei.

¨

Permaneço rodando

como todos os outros.

¨

Ainda permaneço.

¨

A roda, agora

está toda do avesso.

¨

E eu?

aqui, ainda.

¨

Rodo com ela,

comigo.

¨

Roda sozinha.

¨

¨

¨

¨

Fernanda Tavares

Entre linhas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

 

 

Meu máximo e mínimo

a cada instante

no teu seio

sendo explorado

extorquido

quase arrancado

por tuas mãos

leves, doces, ternas.

¨

Bocas ao devorar salivas

entrelaçando sabores

atirando-se ao desejo vil

estéril pecado

brindado a corpos nus

perdidos à procura

do gozo de loucura.

¨

Entre asas e pernas

nalgum naco de alma

que vem a tona

e milimetricamente

se revela tão exposto

quanto cadáveres abertos

onde a sorte moribunda

nasce já enraizada à morte

e se desfaz ao extrair-se de si

toma-se toda

parte por parte

cavando sua dor

no suor do prazer

que está além da carne.

¨

Outrora eu vi um risco

o espaço era todo entrerriscos

como um limite de ser

circunscrito-restrito

num horizonte já quase sem cor

que desesperadamente

quebrou como a mais fina das taças

e em cacos se libertou.

¨

Entre cacos

entretanto se refez

e ainda no pulso

daquele delírio excitante

revelou uma profundidade

além dos riscos.

¨

As auroras trazem consigo

a cor de sangue escorrido

que enrosca nossos sabores.

¨

¨

¨

¨

¨

¨

¨

Fernanda Tavares

O melhor de mim

domingo, 29 de novembro de 2009

 

Já era o tempo cinza

em que os dias quase choram

lágrimas partidas

e tudo aquilo que me sobrava

era um risco terno no nada,

brisa fria.

¨

Meu ódio era o melhor de mim

engasgado num nó de mágoa

acidez berrada

engolida a seco.

¨

Dia a dia a gente aprende

aos poucos

a amarrar as dores lentamente

cavando buracos enormes

porosos e ocos

para jogar fora

num vômito único

seco e breve e amarelo.

¨

Expulsa, arranca

lança fora, puxa

cospe, grita

explode, arranha

tira! tira! tira!

deixa sair aos prantos

deixa arder como ácido em carne viva

deixa corroer por inteiro

deixa doer

deixa assim

deixa, deixa que passa

¨

um dia passa.

Fernanda Tavares

Sala grande

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

 

As xícaras de café ficaram sobre a mesa ainda posta, ainda nossa. O vazio que dormiu por entre nossos corpos de repente saltara do peito e se significava diante daquela manhã de faca, aquela que nos finca, rasga e corta por dentro da carne morta. Era como se eu soubesse que todo nosso sentimento começou a desprender-se de nós ali, e eu sabia, nós sabíamos, nunca mais voltaríamos a tocar um ao outro do mesmo modo, com o mesmo afeto, doçura, carinho.

Eu olhava a aquele lugar com olhos de saudade, de medo, de dor. As paredes brancas e o espaço infinito daquela sala entraram em nós, invadiu nossos peitos, sonhos, planos. Era como se a gente não coubesse mais ali, como se ali não coubesse a gente. A gente nem sequer existia mais. Eu sabia, você também sabia.

Os cigarros acesos, as malas feitas, a casa já vazia. Era hora de partir. Isso significava bem mais que somente isso para nós, isso significava o fim. Os sinos haviam tocado, era hora que nós temíamos desde o inicio, era aquela hora que nunca coube nos nossos planos. Você me olhava com os olhos vermelhos e o coração na mão ao dizer “Boa sorte, conte sempre comigo!”. Falas quase engasgadas que não eram sinceras, não podiam ser. Não restou nada entre nós, nem mesmo a sorte.

Minhas mãos ainda trêmulas apertaram a sua, aquele aperto final, aperto de despedida. Eu nem imaginava o que estava acontecendo. Eu estava te perdendo. Eu já havia perdido. Nós nos perdemos e juntos destruímos partes inteiras só nossas, que simplesmente não cabiam mais naquela casa, não cabiam mais em nós.

E hoje, lentamente já não resta mais em mim aquela saudade, aquele medo, aquela vontade. Hoje não resta nem mesmo aquele cigarro aceso ou aquela sala que nós decoramos com as nossas cores quentes, que agora está lá… vazia, suja, abandonada. Mas, pronta para esperar os próximos de nós, os próximos a tentar, a se tentarem. Os próximos a acreditar que aquela mesa e aquelas xícaras de café são o começo deles, e não o nosso fim.

Eu brindo aquele dia com alguma sensatez muda. Eu ainda guardo o teu fim em mim, afinal a gente já esperava, de algum modo há algum tempo a gente percebeu que ‘a gente’ não existia mais. E que toda aquela tentativa estava nos corroendo acidamente por dentro. Nós já não éramos os mesmos, e já não estávamos mais dispostos a machucar-nos e sofrer assim por algo que não preenchia mais ninguém. A utopia finalmente nos abandonara e, assim pudemos enxergar diante do espelho duas imagens distintas, que finalmente não se completavam, nem se coincidiam em ponto algum.

Da próxima vez, quem sabe uma casa com a sala menor…

Fernanda Tavares

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