menina dos olhos

“Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados.” Osman Lins: Guerra sem testemunhas

De vez em quando

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

De vez em quando amor

palpitações silenciosas

que se explicam por si só.

¨

Abraços, laços, traços.

¨

De vez em quando tesão

gemidos embriagados

atrelados ao desejo cru e cruel.

¨

Suspira, delira, arrepia.

¨

De vez em quando carinho

eternidades milimetricamente cuidadosas

mansidão que me prende a tua mão.

¨

Carícias, olhares, sorrisos.

¨

De vez em quando ternura

coisas sem nome que significam elos

passíveis de sentir com cheiro agridoce.

¨

Melodia, sinfonia, sintonia.

¨

De vez em quando tantos

experimentar tudo o que for possível

cada gota, cada dose.

¨

Liberdade, liberdade, liberdade.

¨

De vez em quando eu

entre tudo

entre nada.

¨

Fernanda Tavares

Vinte vezes a mesma coisa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um vendaval difuso

invisível

que passa arrastando o tempo

desconexo

deixando entre o que já não é

e aquilo que é

essas palavras

derramadas.

¨

Dualidade mórbida acelerada

à passos largos,

vagos

profundezas alcançadas

demoníacas,

embriagadas

quase esquecidas na cor pálida angelical

pintada a cacos

partidos, cortantes

borrados de dor e louvor.

¨

A mesma coisa sendo identificada

vez por vez

rumo a alguma velha e instável

oca nudez

cravada a símbolos malditos

belos e doces e macios

feito o cheiro do vento passando

que leva poeiras inteiras

num quase grito terno e morno.

¨

Vinte versões,

já não tão intactas como antes

pés mais distantes de onde se partiu

mais perdidos

e mais doloridos

e mais seguros

ainda sem lugar pra chegar

tudo falso e tramado

feito uma coisa que nem uma vez nem vinte vezes

vai ser a mesma coisa que nunca não foi.

¨

Não fosse ártico,

nem tanto trágico.

¨

Fernanda Tavares

Fotografia de rabisco

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Do sol ao mar

de sal

e céu

ao léu

entre véus

todo o mel

sabor do ar.

¨

Vento que bate

leva

vira e revira

trazendo cores

das flores mais belas

cheiros de mudas falas

que mudam

por si, sozinhas.

¨

Tambores,

amores entre amoras

auroras

recortando texturas

que sentem a lua

atravessando o longo caminho

daquelas coisas que não existem.

¨

Fernanda Tavares

Monólogo monótono

terça-feira, 20 de outubro de 2009


Mendigo minhas migalhas miúdas

moídas

malditas.


Mentiras molhadas

meu mel moldado

mudado,

maltratado.


Meses movediços

meu máximo e mínimo

ao mesmo modo.


Mente morta

malignamente minuciosa.


Mágoas maltrapidas

mutuamente mutantes

melindras mudas.


Mil marcas

molestadas

memorizadas

movidas à mórbidas minutas.


Minutos minúsculos

minudências móveis

minuanos macabros.


Metamorfoses motoras

moldes e medos.


Mudez mortal

malvada moral

mudanças no mural.


Metades meadas

músculos marcados

modelos menos macios

moldações medonhas.


Mensagem manca

mito morno

manchado de morte.

¨

Minto,

meu momento de mimo.

¨

Fernanda Tavares

Menina quase borboleta

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ela olhava aquela cidade como quem também não era dali

as luzes contra os olhos

os olhos saboreando o medo e a angústia aprisionada.

Entre laços e beijos

havia mistérios quase inexplorados.

Eu me apaixonei não por ela,

mas por tudo que se escondia atrás dela.

A dama da noite, sem classe;

A musa de marfim, com uma pitada salgada.

Encantadora e quase perigosa.

Lacrimejava pelos cantos como mulher,

abria o peito e se entregava com jeito

feito atriz encarnando personagem que já existia dentro de si.

Ela jogava cartas como quem joga só para ganhar

e ela ganhava como quem sabe a hora da vitoria

nem antes, nem depois

o tempo certo, sempre cronometrado, sempre certo.

Pele doce, olhar gentil

a moça que sabia como ser tudo que era de um jeito só dela.

Colocava a colcha sobre seu rosto

tentando guardar dentro da colcha suas dores

ela era doída, bastante doída aliás.

Seu movimento era todo perfeito

usava o charme para tapar seu medo

ela sabia como ninguém

guardar-se dentro de si.

Ficava por ali numa paz estonteante

que só ela sabia alcançar

seu tormento cheirava segredo

tinha a cor de todo amor

despedaçado e moído

com o brilho certo de carinho cansado.

Menina, minha menina

de alguma forma eu preciso deixar escapar

sua confusão e seu medo me afastam

mas só seu olhar sabe como me atrair assim

não me declaro

agora eu me calo

e digo somente:

que eu sempre te amei.

Basílio Ferreira Filho

(uma face máscula de Fernanda Tavares)

Poeira invisível

domingo, 4 de outubro de 2009

 

Um sopro quase poético

leva a alma de encontro ao corpo

cheirando ao vento mudo

repleto de nada que não complete.


É como se o carinho

fosse coisa intrínseca

tatuada na pele frágil e densa e macia

como se as coisas fossem simples

feito o toque,

aquele manso e leve e silencioso

que traz consigo o sabor e amplitude do desejo.


Entre a carne e a não-carne surge algum barulho

aquele que palpita conforme o movimento dos corpos

nos delírios e suspiros a metafísica se encarna em física

pura e nua e crua.

Explosão súbita de valores e sintonias

captadas pela antena única e desajustada

de corações vagabundos sempre ao alcance.


Faz-se necessário falar do tesão

borbulhando como o cheiro da terra

ainda molhada

cavada.

Laços profundos amarrados no suor

de todo aquele prazer,

que não pode, não deve ser dito

foi gravado entre silêncios

e entre silêncios permanecerá.


Paredes abaixo

muralhas no chão

escudos dissolvidos

sentimentos expostos

conquistados e absorvidos e penetrados.


Como se além do céu existisse outra coisa

sem nome e sem cor

lá, só e somente lá

onde meus pés quase tocam o chão.

Fernanda Tavares

Quase conto sobre o amor

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

 

Ao meu amor partido que partiu e aqui comigo deixou lembranças doces e vivas e internas, como se amor fosse uma coisa nossa, não é, e jamais foi meu bem, amor é aquilo que nos pertence, mas que não pode ser nosso, amor é só do amor, e dura apenas enquanto durar amar.

Foi pensando que amar era coisa fácil, que eu comecei a colecionar cacos. Entre os mais belos guardei você nalgum deles (dentre outros tantos não menos belos). Seu rosto reluzia como uma vidraça limpa e eu me lembro muito bem como você olhava vitrines como quem olha dentro de si, parava e ali reparava cada uma, reparava cada parte de si no brilho delas, e só assim podia tocar-me, é que as vitrines é onde me escondia e onde escondeu a todos os que amou, você olhava vitrines como quem guarda as pessoas dentro delas, e só as toca até o vidro ainda brilhante, ainda limpo. E foi assim, que me tocou. Tocaste de um jeito singelo e calmo e manso, me olhou dentro dos olhos de um jeito profundo e deixou vazar algumas lágrimas como se escondesse algum segredo nelas. E ora, escondeste bem, meu bem. As pistas e passos que aqui ficaram não mais me conduzem à aquele toque e aquele olhar, mas me mostram dentro de mim um caminho vago que só eu sei percorrer.

O fim do amor é algo digno de brindes eternos e saudosos dignos das palmas mais representativas que podes receber. E partir não é simplesmente dar as costas e sair, é mais que isso, é deixar de si tudo o que deve ser deixado, e acredite, é tarefa árdua deixar um pouco de si num canto qualquer onde nem sequer sabes se vai saber encontrar novamente o caminho, e ainda é levar aquela parte pesada que mal podes carregar com os ombros já cansados e pesados e baleados. O mais difícil do amor é deixar de amar, esse sim é o impossível do amor. Improvável.

Amar é aprender partir com classe e deixar o outro partir como quem é expecta-dor de sua pobre e nobre dor. Deixar ir e saber a dor é o mínimo necessário para entrar em contato consigo através somente de si. E entra, deixe entrar, afinal é saboroso equilibrar energias e vê-las estáveis como nunca antes imaginaste. O sabor de sofrer tem um gosto bonito de se conhecer. E é assim, só assim, quando deixas partir e partes também que percebes que amar é muito além do que dura o amor, aquilo que sobra depois de tudo que partiu e ficou é ainda o amor, do jeito que ele devia ser antes mesmo de ter sido tudo isso.

Só assim que o sabor dos nossos sonhos, é enfim o sabor nosso, e não vai fugir, ficou guardado aqui com algum outro gosto, real.


Basílio Ferreira Filho

P.S.: uma face máscula de Fernanda Tavares

 

Sem norte

terça-feira, 22 de setembro de 2009

 

Loucura e desorientação,

naquele cemitério de ilusões

encruzilhadas na mente morta,

pálida de confusão.

Sem cheiro, sem cor.

Com aquele gosto asco,

medo e nojo e dor.

Mãos trêmulas e frias e suadas

marcadas com sangue.

Sangue que veio da alma

escorreu do vazio que ela escondia de si.

Ela segurava aquele livro

como se estivesse dentro dele, presa ali

em algum lugar onde ela certamente não estava.

Seu corpo não mais falava,

era mudo e rouco

ela não tinha como gritar aquela angústia aprisionada em lugar nenhum.

Fernanda Tavares

Vago

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

 

A doce dose amarela de sangue escorrido, pálido e coalho

Feito versos perdidos

Lembranças brancas

Naquele azul que borbulhava cheiro de dor.

Abaixo o rosto e escondo-me em mim

Escondo-me de ti.

Tudo que já não pertence e ainda é meu.

Os furos da parede concreta levam ao teu silencio já esquecido

Como num naco de alma

Uma lua que ainda brilha no teu peito

Por trás do gosto nobre do corpo adormecido.

Como se os mortos falassem do que nunca sentiram!

Fernanda Tavares

Sobre meu quase eu

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

 

Eu escrevo sobre o vazio.

Sobre o nada que sempre fui

E sobre a coisa nenhuma que preservo em mim.

Escrevo o que não sou.

Desato meus nós com palavras soltas

Mais vagas que eu mesma.

Desabafo meu silêncio

Num berro sem voz, sem cor.

¨

Eu escrevo sobre a falta de eu em mim

Jogada ao vento nessas palavras sem sentido

Escrevo sobre meu anti eu

Sobre meu ego perdido no eco partido.

Eu mostro tudo o que não sou

Num retrato meu, que não me vi

Atiro minha parte guardada

Em qualquer gaveta cardíaca trancada, sem porta de entrada.

¨

Eu escrevo sobre o tempo,

Maldito!

Aquele que passou e levou consigo uma parte do que era meu

Uma parte que era eu mesma.

Um brinde a minha possessão, só minha.

Duas doses com sal e limão.

Eu já não tenho nada mais a escrever

Sobre meu quase eu.

¨

¨

Fernanda Tavares

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